“A dor e o prazer não são imagens gémeas ou simétricas uma da outra, pelo menos não o são em termos de suas funções no apoio à sobrevivência. De certa forma, e a maior parte das vezes, é a informação associada à dor que nos desvia do perigo iminente, tanto no momento presente como no futuro antecipado, É difícil imaginar que os indivíduos e as sociedades que se regem pela busca do prazer, tanto ou ainda mais que pela fuga à dor, consigam sobreviver. Alguns dos desenvolvimentos sociais contemporâneos em culturas cada vez mais hedonistas conferem plausibilidade a essa ideia, e o trabalho que meus colegas e eu actualmente realizamos sobre a base neuronal das várias emoções reforça ainda mais essa plausibilidade. Há mais variações de emoção negativa que de emoção positiva, e é claro que o cérebro trata de forma diferente essas duas variedades. Talvez Tolstoi tenha tido uma intuição semelhante quando escreveu no início de Ana Karenina: “Todas as famílias felizes são parecidas umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”

– António Damásio

Fonte: DAMÁSIO, António. O Erro de Descartes. Editora Companhia das Letras, 2004, ISBN 8571645302, 9788571645301, 336 páginas

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